A POLÍTICA E OS APOLÍTICOS. - Pastor Clari de Mattos

ESTUDOS

A POLÍTICA E OS APOLÍTICOS.

Publicado: junho, 2018

“Paguem a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra”(Rm 13.7);
“Jesus respondeu: — O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas agora o meu Reino não é daqui” (Jo 18.36).
O assunto política sempre gerou polêmica entre os cristãos em geral e entre os crentes particularmente muito mais. Os acontecimentos escandalosos no que se refere à administração pública têm acentuado uma generalizada descrença e até mesmo ódio até entre o povo de Deus e não podemos negar isso.
Há posições extremadas em relação ao tema.
Uns que propõe e incentivam a participação efetiva do crente, afinal temos tal direito e até o dever se contribuirmos para o bem estar da sociedade. Estes fazem de tudo para politizar os salvos, convocando-os para se engajarem em causas sociais, etc.
Encontramos também aqueles que são radicalmente contra, dizendo que isso não é coisa para crente, que é algo mundano, os tais foram ensinados desde sempre, que isso é coisa do satanás, pois só há mentira, corrupção, eles acabam anulando o voto ou incentivando a prática, etc.
Também se vê alguns para os quais tanto faz, não têm uma posição nem outra, são simplesmente neutros (?);
Por parte dos que querem por todos os meios justificar seu envolvimento na política, citam textos famosos, porém fora do contexto, como o que diz: “feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”, ou então forçam interpretações alegóricas ou tipológicas mencionando personagens bíblicos como José no Egito, Daniel na Babilônia e Ester na Pérsia. Contudo, sabemos que nenhum destes ou qualquer outro personagem bíblico viveu uma realidade nem de perto parecida com a nossa, onde se configuram um cenário multifacetado de partidos políticos com as mais variadas ideologias, muitas delas antibíblicas.
Portanto, não há parâmetros nestes casos para se tomar uma decisão de ser um militante político ou usar as Escrituras para justificar esta ou aquela posição partidária.
Mas, afinal política é uma coisa do demônio, mesmo? Ou simplesmente representa um tema desconhecido ou negligenciado por muitos?
Analisada de forma nua e crua, veremos que se trata algo neutro em si, vejamos algumas definições de política encontrada na literatura em geral.
Política é denominada a arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; aplicação desta arte aos negócios internos da nação (política interna) ou aos negócios externos (política externa).
Nos regimes democráticos, a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos tendo sido eleitos por voto em pleitos regulares, também se classificam como atividades políticas as ações da militância partidária.
A palavra tem origem nos tempos em que os gregos estavam organizados em cidades-estados chamadas “polis”, nome do qual se derivaram palavras como “politiké” (política em geral) e “politikós” (dos cidadãos, pertencente aos cidadãos), que se estenderam ao latim “politicus” e chegaram às línguas europeias modernas através do francês “politique” que, em 1265 já era definida nesse idioma como “ciência do governo dos Estados”.
O termo política é derivado do grego antigo πολιτεία (politeía), que indicava todos os procedimentos relativos à pólis, ou cidade-estado. Por extensão, poderia significar tanto cidade-estado quanto sociedade, comunidade, coletividade e outras definições referentes à vida urbana.
O livro de Platão traduzido como “A República” é, no original, intitulado “Πολιτεία” (Politeía).
“O homem é um animal político”, é uma frase famosa atribuída a Aristóteles.
As escrituras, na verdade, não normatiza nem a participação efetiva do crente nos negócios desta vida, nem proíbe!
Enquanto cidadãos nesta pátria terrestre, temos, sim liberdade de escolher a carreira que desejarmos, inclusive a política, certamente. Como vimos a política significa simplesmente a administração dos bens públicos.
Mas, o que não podemos confundir é o envolvimento da igreja enquanto corpo de Cristo com a política partidária, especialmente num tempo de tanto relativismo como hoje se vê. Usar as experiências do antigo testamento para justificar isso é pura preguiça mental para entender que lá foram casos específicos e não norma geral. Ali era uma Teocracia, e todos os que desempenharam seus papéis na administração pública foram claramente escolhidos por Deus para propósitos específicos e temporários.
Outra coisa que a mim parece muito clara é o fato de que um obreiro da igreja (pastor, presidente ou não), devia decidir se engaja nas fileiras do Reino de Deus ou se alista no exército das coisas deste mundo – secular!
Veja: “Nenhum soldado em serviço se envolve em negócios desta vida, porque o seu objetivo é agradar aquele que o recrutou” (2 Tm 2.4).
Mesmo ao focarmos o crente como cidadão, é preciso lembrar que vivemos uma realidade no Brasil de um emaranhado composto por uns trinta e cinco partidos políticos cada um com suas ideologias, como já dissemos, e nem sempre essas ideias se harmonizam com os ensinos da Palavra de Deus. Essa realidade deveria nortear tanto o crente pretendente a candidato, como também o eleitor que vai votar nas próximas eleições.
Saber o que o partido pensa sobre assuntos como descriminalização das drogas, legalização dos jogos de azar, casamento entre pessoas do mesmo sexo, eutanásia, aborto, células tronco, ideologia de gêneros, etc.
Acredito que o crente pode sem culpa alguma, se engajar nas causas justas da sociedade, com sabedoria e respeito, mas com consciência bíblica daquilo que representa o ideal de Deus para o ser humano.
As diretrizes do novo testamento sobre o assunto são apenas subjetivas, muito poucas, resumidas em:
O conselho de Paulo para que o salvo ore pelos que estão em eminência, ou seja, no poder (1 Tm 2.1,2) : “Orem em favor dos reis e de todos os que exercem autoridade, para que vivamos vida mansa e tranquila, com toda piedade e respeito”.
Também exige que o crente em Cristo seja submisso às autoridades legalmente constituídas (Tt 3.1; Rm 13.1-7; 1 Pe 2.12-17).
Somente se permite a desobediência civil, nos casos em que decretos ou leis humanas sejam claramente contrários à Palavra de Deus (At 4.19, 20; 5.29).
“Desobediência civil, em poucas linhas, é não respeitar uma lei por achar que ela não faz o menor sentido”.
Na nossa atual realidade, quando muitas leis já confrontaram os ensinos bíblicos e algumas garantias do cidadão cristão foram retiradas ou em vias de acontecer, podemos conforme as diretrizes da ética Cristã, eleger candidatos crentes, devidamente vocacionados e preparados para a vida pública. Tendo consciência de que estes enfrentarão muitas e ferrenhas lutas.
Não creio na função corporativa da igreja, como se fosse um partido político exigindo ser ouvida, mas sim em cidadãos transformados que viverão na sociedade como sal e luz (Mt 5..13-16), votando e sendo votado.
A missão da igreja é espiritual, primordialmente, a do estado é civil e secular.
Amém!
Pr. Clari Mattos.


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