REFORMADO OU TRANSFORMADO? - Pastor Clari Mattos

ESTUDOS

REFORMADO OU TRANSFORMADO?

Publicado: novembro, 2017

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).
Já ouvi há muito tempo, que o pecado deforma, a escola informa, mas só Cristo transforma! E isso mesmo, ao considerarmos a dimensão espiritual do ser humano.
Ao falarmos de reforma, pelo próprio sentido da palavra, entendemos que estamos tratando de mudanças, alterações, restaurações ou para usar um termo mais popularizado recentemente, revitalização. Todos estes sinônimos retratam algum tipo de trabalho ou esforço partindo de uma determinada situação de algo ou alguém, agir para melhorar ou então buscar um retorno para o mais próximo possível do produto ou estado original de algo. Às vezes, um pouco de produto lubrificante resolve, mas há situações em que é necessário um desmonte total para retificar partes gastas de uma engrenagem, etc.
Tratando do cristianismo, o que chamamos de reforma protestante foi um intenso e elogiável trabalho intelectual e espiritual de vários homens sérios do século XVI que temiam e amavam a Deus e sua Palavra, os quais sentiam-se atingidos em suas concepções doutrinárias e espirituais, pelas pregações e o comportamento da cúpula da igreja de seu tempo.
O que queriam, não fundar nova igreja, criar uma revolta ou rebelião, o que infelizmente aconteceu na sequência do movimento, com muitas violências de ambos os lados. Almejavam, aqueles reformadores, dos quais Martinho Lutero foi o principal, um retorno ao padrão original do evangelho em sua simplicidade e pureza.
O quadro religioso ou espiritual, moral e político do tempo dos chamados reformadores era realmente preocupante. Sem sombra de dúvidas, podemos dizer que aqueles homens, entre os quais se destacam Lutero, João Calvino, João Knox, Filipe Melancton, etc., foram instrumentos de Deus, verdadeiramente. Mas, uma reforma é, muitas vezes, incompleta, parcial superficial, não atingindo todas as partes ou toda a extensão do corpo original.
Algumas reformas religiosas mencionadas na própria bíblia foram assim, apenas temporárias ou emocionais.
Uma boa ilustração sobree o que dissemos acima, sobre essa realidade transitória, passageira e não duradoura das reformas religiosas, pode ser constatada facilmente na história do rei Josias de Judá que reinou no período de 640 a 609 a.C (2Cr 34.1). Com apenas oito anos ele foi feito rei pelo povo, em lugar de seu pai que tinha sido assassinado em casa (2Cr 33.24), o qual havia sido um governante perverso e extremamente idólatra, oferecendo sacrifícios a todas as divindades conhecidas de então. Mas, este menino, filho e neto de idólatras vai fazer diferente, e fez!
Toda sua linda história é contada com destaque nos livros de Reis e Crônicas. Este rei temente fez questão de inspecionar pessoalmente a ampla obra da reforma que ordenou em toda a nação (2Cr 34.4-7). Nessa verdadeira cruzada contra a idolatria foram derrubados altares de deuses familiares, foram quebrados os postes-ídolos da deusa Aserá e destruíram todas as imagens feitas de pedra e metal que foram encontradas, fazendo-as em pó! E para completar, queimou os próprios ossos dos sacerdotes pagãos sobre seus respectivos altares. Resumindo a história o texto de 2Cr 34.7 diz: “assim Josias purificou Judá e Jerusalém”.
Podemos até imaginar a alegria, o entusiasmo espiritual sentido pela maioria dos habitantes naqueles memoráveis dias de renovação e de retorno ao padrão de espiritualidade liderado por esse jovem rei. O relato nos informa que enquanto Josias viveu, o povo não se desviou de seguir o senhor (2Cr 34.33). Mas, será que foi uma reforma consistente, profunda do tipo e qualidade que atinge o coração, que muda a vida interior dos adoradores, ou foi algo somente conseguido por efeito de decreto real, e as pessoas só não adoravam outros deuses porque temiam a punição? Bom, o tempo dirá! Depois de trinta e um anos de reinado de Josias, em que a nação viveu liderada por ele, uma nova vida, um relacionamento correto com Jeová, o rei morre e então será provado se o aviamento da fé, foi profunda mesmo ou apenas maquiagem. Após um período de domínio egípcio, um de seus filhos é coroado em seu lugar com vinte e cinco anos de idade e fez tudo contrário ao que seu pai lutou tanto para conseguir (2Cr 36.5). E o povo? Há, o povo seguiu seus passos, naturalmente, o que finalmente resultou em punição de Deus através da permissão do cativeiro da Babilônia. Este fato nos prova que reformas, são ações externas, superficiais e que nem sempre resultam em mudanças duradouras.
O que importa mesmo e o que Deus deseja que aconteça é muito mais que simples restaurações ou remendos feitos sobre uma estrutura corrompida. O Senhor Jesus, um dia ilustrou para seus ouvintes, a chegada do Evangelho como algo inteiramente novo e não como remendo de tecido novo colocado em pano velho, pois assim o rombo seria ainda maior (Mt 9.16,17).
A salvação do pecador, por exemplo é comparada na bíblia, abundantemente, como um “nascer de novo” (Jo 3.3-6). Também temos a designação do salvo em Cristo identificado como uma nova criatura ou criação (2Co 5.17; Gl 6.15), e sobre os que já experimentaram a salvação se diz que têm uma “nova vida”, ou que vivem em novidade de vida ((Rm 6.4).
O que os homens precisam, sejam crentes ou não, é de uma regeneração, não apenas uma reforma, que como vimos deixa sempre algo a desejar. Quando a bíblia fala de nascer de novo, propõe algo radical, completo e perfeito. É certo que nem mesmo os salvos pelo sangue de Cristo já vivem a plena e completa transformação, não somos um produto pronto e acabado, “estamos em obras” (Fl 1.6), mas estamos a cada dia progredindo nesse sentido (2Co 3.18).
Todos os estudiosos e pensadores sabem que a reforma protestante, conquanto tenha sido uma obra grandiosa, maravilhosos em vários aspectos como intelectual, político e religioso, e tenha igualmente abençoado não apenas os alemães se não todo o mundo, também teve suas brechas. Até hoje, alguns grupos que se dizem continuadores do movimento, não se libertaram de algumas amarras cerimoniais, ainda usam paramentos e vestes litúrgicas, bem como velas em seus cerimoniais, coisas herdadas da idade média, não da bíblia. Os queridos e honrados reformadores eram homens como qualquer um de nós e estavam sujeitos à equívocos, exageros, etc., também.
O grande legado do movimento foi reavivar, ou criar nas pessoas o sentimento de liberdade e de fé pessoal em Deus, independentemente de intermediários, sejam eles humanos vivos ou santos falecidos. Outra verdade bíblica iluminada foi o desertar da consciência do crente de que somente Cristo é suficiente para a salvação (At 4.12); que somente há um único Deus que é todo-poderoso e que se alcança a justificação pessoal, unicamente pela fé (Rm 1.17). Outra doutrina enfatizada com vigor pelos reformadores foi a da Graça de Deus, única base para Deus perdoar o pecador, mediante seu arrependimento e confissão. As Escrituras foram elevadas no conceito do povo, lembrando que são inspiradas e, por conseguinte, única regra de fé e prática para a vida cristã sadia (Rm 10.17; 2Tm 3.16).
Que vivamos, uma vida de transformação constante, pelo poder do Espírito de Deus, e não apenas algum tipo de reforma paliativa, isso não resolverá o problema do pecador, nem da situação de marasmo spiritual evidenciado por muitos que se dizem cristãos, hoje.
Que assim seja,
Amém!

Pr. Clari Mattos


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