ESTUDOS

O CONTROVERSO TEMA DO JEJUM

Publicado: fevereiro, 2019

“Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam” (Mt 6.16).
Embora não haja uma ordenança específica e direta, no Novo Testamento sobre o ato de jejuar, Jesus o admite claramente, neste texto como uma prática estabelecida em seus dias e por consequência para a igreja. Ele usa, pelo menos em nossas versões, o advérbio de tempo “quando”, o que prova ser algo comum entre pessoas piedosas de lá e de cá também.
Na Bíblia, jejuar refere-se à abstenção de alimento por motivos espirituais. Embora o jejum apareça frequentemente vinculado à oração, ele por si só deve ser considerado uma prática de devoção e proveito espiritual. Na realidade, o jejum bíblico pode ser chamado de oração sem palavras.
Há três formas principais de jejum, vistas na Bíblia:
1. Jejum normal a abstenção de todos os alimentos, sólidos ou líquidos, mas não de água (Mt 4.2);
2. jejum absoluto a abstenção tanto de alimentos como de água (Et 4.16; At 9.9). Normalmente este tipo de jejum não deve ir além de três dias, pois a partir daí o organismo se desidrata, o que é muito nocivo à saúde. Moisés e Elias fizeram jejum absoluto por 40 dias, mas sob condições sobrenaturais (Dt 9.9,18; Êx 34.28; 1 Rs 19.8);
3. o jejum parcial uma restrição alimentar, e não uma abstenção total dos alimentos “Manjar desejável não comi, nem carne nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com unguento, até que se cumpriram as três semanas” (Dn.10.2,3).
O próprio Cristo praticava a disciplina do jejum e ensinava que a mesma devia fazer parte da vida consagrada do cristão (Mt 6.16), além de ser um ato de preparação para a sua volta (Mt 9.15). A igreja do Novo Testamento praticava o jejum também em suas lides missionárias (At 13.2,3; 14.23; 27.33).
Porque jejuar?
O propósito do jejum associado à oração:
1. um ato estritamente para Deus, visando à sua honra (Mt 6.16-18; Zc 7.5; Lc 2.37; At 13.2);
2. o crente humilhar-se diante de Deus (Sl 69.10; Ed 8.21; Is 58.3), para receber mais graça (1 Pe 5.5) e desfrutar da presença íntima de Deus (Is 57.15);
3. expressar pesar por causa de pecados e fracassos pessoais cometidos (1 Sm 7.6; Ne 9.1,2);
4. mostrar pesar, também por causa dos pecados da igreja, da nação e do mundo (1 Sm 7.6, Ne 9.1,2);
5. buscar graça divina para novas tarefas e reafirmar nossa consagração a Deus (Mt 4.2); 6. como um meio de buscar a Deus, aproximar-nos dEle e prevalecer em oração contra as forças espirituais do mal que lutam contra nós (Ed 8.21,23,31; Jl 2.12; Jz 20.26; At 9.9); 7. como um meio de libertar almas da escravidão do mal (Is 58.6-9; *Mt 17.14-21);
8. demonstrar arrependimento e assim preparar o caminho para Deus mudar seus propósitos declarados de julgamento (Jn 3.5,10; 1 Rs 21.27-29; 2 Sm 12.16,22; Jl 2.12-14);
9. meio para se obter revelação, sabedoria e entendimento no tocante à vontade de Deus (Dn 9.3,21,22; Is 58.6,11; At 13.2,3);
10. a prática de jejum abre caminho para o derramamento do Espírito e compõem o preparo do crente para a volta de Cristo à terra para buscar o seu povo (Mt 9.15).
Mas, também encontramos alguns outros tipos de jejuns no relato Sagrado, que não estão estritamente relacionados à motivos espirituais nas acepções comuns que ouvimos de nossos pregadores.
Vemos em Dn 1.11-21, um tipo de abstenção de alimentos com base de proteínas em favor de uma dieta vegetal, com resultados milagrosos na constituição física dos rapazes, não era um jejum com propósitos estritamente espirituais. Não deixou de ser uma operação sobrenatural, mas o que queremos dizer é que ao recusar os manjares, por motivo de consciência religiosa, Deus honrou a atitude daqueles rapazes e os abençoou em seus metabolismos, maravilhosamente! Mas, isto não foi nos deixado como norma de procedimento sobre jejum, mesmo porque esse relato faz parte do conteúdo histórico do referido livro.
Já a menção de Paulo sobre “jejum”, em 2Co 6.5 e 11.27, tem a ver com “passar fome” e não jejum por motivos espirituais também. O que o apóstolo fala nestes textos faz parte de um contexto de perseguição, sofrimentos, lutas e privações várias, entre as quais a de alimento.
Mas, que fique claro, tal como a oração ou outra atividade espiritual praticada pelo crente, “O jejum não muda a Deus. Ele é o mesmo antes, durante e depois de seu jejum. Mas, jejuar mudará você. Vai lhe ajudar a manter-se mais suscetível ao Espírito de Deus”. O jejum não tornará Deus mais poderoso, bondoso ou misericordioso para conosco, ele está ligado diretamente a nós, à nossa necessidade de romper com as barreiras e limitações da carne. O jejum deixará nosso espírito mais atento pois mortifica a carne e aflige nossa alma.
Obs. Uma palavra necessária, creio, precisa ser dito sobre o famosíssimo versículo 21 de Mateus 17: “[mas esse tipo de demônio só pode ser expulso com oração e jejum]”.
Embora, digam que tal versículo não consta em vários manuscritos, é inconteste a constatação de que sem uma vida de oração e consagração, expressa por uma prática do jejum, não haverá autoridade espiritual para se impor sobre as hostes do mundo tenebroso dominado pelos demônios. Mas, repito, trata-se de uma “vida de oração” e não apenas, esporádicas campanhas de oração.
Efetivamente, entendo que o texto não está dizendo àqueles discípulos que deviam sair dali e ir jejuar, depois voltar, não, na verdade é uma repreensão pela falta de consagração e fé deles, ver Mc 9.29.
“Jejuar é privar-se da gratificação de qualquer apetite físico. Pode ser voluntário, como em Mt 6:16-17, ou involuntário (At 27:33; 2 Co 11:27). No NT está associado à tristeza (Mt 9:14-15) e oração (Lc 2:37; At 14:23). Nestas passagens (Mt 6:16-18) o jejum é acompanhado de oração num reconhecimento da sinceridade em se discernir a vontade de Deus.
“O jejum não tem qualquer mérito no que diz respeito à salvação, e nem dá a um cristão uma posição especial diante de Deus. Um fariseu certa vez gabou-se de jejuar duas vezes por semana, porém aquilo não lhe deu a justificação que buscava (Lc 18:12, 14). Mas quando um cristão jejua secretamente como um exercício espiritual, Deus vê e recompensa. Apesar de não ser ordenado no NT, o jejum é encorajado pela promessa de uma recompensa. Ele pode ajudar na vida de oração de alguém por afastar da pessoa a sonolência e o entorpecimento. Ele é valioso em épocas de crise quando se deseja discernir a vontade de Deus. E tem seu valor em promover a autodisciplina. Jejuar é uma questão entre o indivíduo e Deus e deveria ser feito apenas com o desejo de agradar a Deus. Ele perde o seu valor quando é uma obrigação vinda de fora ou feito com o objetivo de se exibir.” (W. MacDonald)

Amém!
Pr. Clari Mattos

Adendo:
O que dizem os especialistas sobre o tempo o corpo aguenta sem água?
Em um país como o Brasil, em pleno verão, com altas taxas de temperatura e umidade relativa do ar, não dá para resistir mais do que quatro dias.
No frio, esse tempo pode chegar a sete dias – dependendo, claro, das condições físicas de cada um.
Para se ter uma ideia, a perda média de água do ser humano é de cerca de 2 a 2,5 litros de água por dia, que saem na urina, fezes e suor – em dias quentes, chegamos a perder o dobro disso. Pois bem, quando você sente sede é porque já teve de 1% a 2% do seu peso perdido em água. “Quando essa taxa passa de 5%, a pessoa começa a ter sérios comprometimentos clínicos”, afirma o médico fisiologista Renato Lotufo.
No calor, quatro dias a seco significam uma perda de mais de 20% do peso corporal – risco de morte imediata. “Esportistas precisam ficar ainda mais atentos, pois a saída de líquidos é muito rápida. Há casos de morte por desidratação em triatletas que não se hidrataram por duas horas”, diz Lotufo.

http://super.abril.com.br/saude/quanto-tempo-o-corpo-aguenta-sem-agua/Acesso 27/06/17.
Fonte consultadas: BEP, http://www.orvalho.com.

PERGUNTAS.
Devo jejuar por outro? (Et 4.16). Somente encontrei este texto no AT que diz claramente de alguém pedindo que outro jejum por ela.
Jejuar em favor de outros, no lugar de outros, o entendimento é parecido com o que fazemos na oração intercessora. Entendo para nossa dispensação, que podemos fazer isso indiretamente, nos casos em que obreiro, por exemplo se consagra intensamente para ser usado por Deus numa mensagem, uma palestra, etc. Outro caso seria jejum em favor de uma pessoa em estado de inconsciência, ou por enfermidades ou ser recém-nascido.
Agora, não há base para se fazer jejum por procuração, no lugar de alguém que somente queira andar de carona, os famosos parasitas espirituais.
Como foi o jejum de Jesus, parcial ou total?
Não dá para saber com certeza baseado nos três evangelhos, se o jejum feito por Jesus durante 40 dias, foi absoluto, total ou parcial. Lemos que no final do período. Ele teve fome, não sede, do que muitos entendem que o Senhor teria feito uso de líquido durante o período (Mt 4.2). Por outro lado, há aqueles que dizem: “ se Moisés fez um jejum total de 40 dias, sem comer pão, nem beber água, porque o Senhor não o faria, afinal Ele é maior” (Êx 34.28;).
Se foi total como harmonizar com a questão da desidratação?
Quanto à possível desidratação, tanto o caso de Moisés, quanto o de Elias (1Rs 19.8) e se aceitarmos o caso do jejum absoluto de Jesus, deve ter acontecido um milagre de manutenção e sustentação biológica especial. Tais eventos são únicos e não nos são dados como base normativa geral para nós crentes, como regra a ser seguida. Há uma breve informação em Mc 1.13 que pode indicar uma possível assistência sobrenatural, no caso do Senhor Jesus – homem: “estava com as feras, mas os anjos o serviam”.

Quanto ao jejum em Nínive, porque os animais “deviam” jejuar? (Jn 3.5-10)
R. Porque o rei ordenou!
Deus recebeu ou aceitou o jejum dos animais?
R. Deus atendeu ao arrependimento do povo (v10).
Amém!
Pr. Clari Mattos.


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