ESTUDOS

QUANDO OS FUNDAMENTOS AFUNDAM!

Publicado: outubro, 2019

“Ora, se forem destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (Sl 11.3).

Os sacerdotes, filhos de Eli aparecem na história de Israel no final dos tempos dos juízes como estando totalmente corrompidos, quando considerado as exigências de Deus para a execução da função sacerdotal.

Havia por parte de Deus, uma orientação disciplinar toda estruturada e bem definida para as funções e compromissos da função sacerdotal (Nm 4, etc.). A honra de nascer na tribo de Levi por Coate, fazia de cada menino um potencial sacerdote em Israel e isso impunha-lhes o dever de viverem uma vida santa em tudo (Lv 21.1-8).

Mas, o passar dos anos trouxe novas realidades para o povo de Deus nos tempos do antigo testamento, mudanças geográficas, sociais e econômicas influenciaram grandemente o comportamento do povo trazendo alterações ou adaptações da vivência, nos relacionamentos e até e mais sério na forma do culto a Jeová.

O que vemos nos tempos dos juízes em Israel é uma lamentável realidade moral e espiritual resultante de um progressivo abandono do modelo proposto por Deus a que o povo devia seguir. Havia líderes, alguns deles com influência apenas local e não nacional e por duas algumas vezes o escritor do livro de 1Samuel expressa de forma desencorajadora que “não havia rei em Israel, cada um fazia o que achava melhor” (Jz 17.6; 18.1;19.1;21.25).

Num clima assim nasceram, cresceram e se formaram os filhos de um sumo sacerdote chamado Eli.

Quando tiveram idade seus filhos exerceram suas funções ao lado do pai. Mas, fica demonstrado que temiam a Deus e nem respeitavam os homens (1Sm 2.15-17). Eram tidos como filhos de Belial e não conheciam o Senhor, isto é, não tinham comunhão com Deus (1Sm 2.12). Belial significa impiedade, perversidade e maldade (Pv 6.12; 2 Co 6.15). Hofni e Finéas profanavam os sacrifícios, levando o povo a desprezar as ofertas do Senhor (1Sm 2.13-16,24). Procediam contra a determinação divina quando apresentavam as ofertas, que deveriam primeiro apresentá-las a Deus e depois tomar parte delas (Lv 3.3-5, 16). Mas os filhos de Eli tomavam primeiro para si e ainda sob ameaça (1Sm 2.15,16). Contaminavam-se com as prostitutas deitando-se com as mulheres na porta da tenda (1Sm 2.22).

Certo famoso ditado popular diz: “quando quem comanda perde a vergonha, quem obedece perde o respeito”. (Georg Christoph Lichtenberg – filósofo, matemático e escritor, alemão nasceu 1742).

Comandar não é o mesmo que mandar, quem comanda obedece a um regime disciplinar, quem apenas manda age por impulso compulsivo do momento ou por se achar.

Quando a autoridade se torna conivente.

Eli foi o 14º juiz civil em Israel e o primeiro sumo sacerdote em Siló, cerca de 16 quilômetros ao norte de Betel (1Sm 1.9). Teria sido o primeiro sumo sacerdote dos descendentes de Itamar (Lv 10.12; 1 Reis 1.7,8; 2. 26,27,35). Eli administrou numa época de muita carnalidade e formalismo, cujos filhos Hofni e Finéas que exerciam funções sacerdotais, não procediam de acordo com o propósito divino, além de terem a conivência do pai que não os repreendia, incorrendo em sentença sobre a sua casa (1Sm 2.27-34). Eli tornou-se sacerdote aos 58 anos de idade e o fato de passar 40 anos na função de magistrado e sacerdote, justifica que exerceu as referidas funções com sabedoria e autoridade, porém o seu final foi muito comprometedor (1Sm 4.18). Pelos registros bíblicos, com o passar dos anos, Eli perdeu o vigor e a autoridade e se tornou conivente com o pecado.

Seu declínio espiritual teve início quando:

  1. a) Fez julgamento precipitado sobre Ana, achando que estivesse embriagada enquanto ela falava com Deus (1Sm 1.14-17);
  2. b) Honrava mais os filhos do que a Deus (1Sm 2.29);
  3. c) Com idade avançada teve sua visão enfraquecida, mas vê-se que perdeu também a visão espiritual (1Sm 3. 2; 4.15);
  4. d) Deus não falava mais com ele e podemos observar esse detalhe quando Deus falou com o jovem Samuel e ele ficou curioso para saber o que Deus lhe havia dito (1Sm 3.16-18);
  5. e) Com a velhice acentuada e o peso exagerado, tinha perdido a agilidade e lhe faltava disposição para exercer a função (1Sm 4.18);
  6. f) Vivia acomodado, deitado e sentado (1Sm 1.9; 3.2; 4.13, 18).

O principal pecado de Eli foi a conivência, pois ele sabia de tudo o que seus filhos praticavam e Deus o incluiu com os dois filhos como dando “coices contra o sacrifício e as ofertas de manjares” (1Sm 2.29).

Que Eli sabia de tudo o que faziam seus filhos está registrado em 1Sm 3.13.E segundo a lei seus pecados se caracterizaram como blasfêmia contra Deus, como diz uma tradução mais antiga. E, segundo Lv 24.11-16,23, a blasfemar contra o Senhor era uma ofensa passível da pena de morte. Ao condenar os sacerdotes à morte por seus pecados, Deus está começando pela sua casa (1Pe 4.17).

Era muito grave aquele pecado especialmente por ter sido cometido por aqueles que estavam à frente da obra, e como não souberam honrar o privilégio que Deus lhe concedeu, ao contrário, tiravam proveito da posição.

O pecado acarreta não apenas sentença pessoal como esta, mas produz consequências terríveis que naquele caso foi extensiva à nação toda, que também pecou seguindo o exemplo e influência daqueles filhos de belial (1Sm 2.24, 12).

Algum tempo depois Israel foi ferido violenta e vergonhosamente pelos filisteus, que fugiram para as suas tendas e caíram de Israel trinta mil homens (1Sm 4.10). E daí para a frente, foi uma má notícia atrás da outra. Morreram os dois sacerdotes filhos de Eli e, além de perder a batalha, os filisteus tomaram a Arca do Concerto (1Sm 4.17), que sempre significou a presença de Deus com eles; quando Eli soube da notícia, caiu da cadeira para trás, quebrou o pescoço e ali mesmo morreu (1Sm 4.18); estando sua nora, esposa de Finéas, grávida e próxima ao parto, ouvindo estas notícias, ali mesmo encurvou-se e deu à luz e, ao mesmo tempo morreu (1Sm 4.19), mas ainda reuniu forças e deu ao recém-nascido o nome de Icabô ou Icabode “Não há glória” ou “Onde está a glória”, referindo-se à Arca de Deus que foi capturada, e ainda por causa da morte de seu sogro e de seu marido (1Sm  4. 21, 22).

A grande lição que fica para (Rm 15.4) é que tudo o que faz o cristão por conta própria, desprezando os cuidados divinos, gloriando-se em suas próprias presunções, o resultado poderá ser trágico (Tg 4.13-16). Se o vigor espiritual estiver em declínio ou se o formalismo permite que se sirva a Deus mecanicamente, de tal maneira a se ter uma vida de conivência com as coisas que não agradam a Deus, só há dois caminhos para a restauração: orar suplicando a misericórdia do Senhor para prosseguir alinhado com Deus na caminhada; ou renunciar para não comprometer ainda mais o bom andamento da obra do Senhor. Nunca perseverar dominado pela vaidade, mundanismo e orgulho porque com isso não se vai a lugar nenhum. É como diz Pv 16.1: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda”.

Preocupado com essa questão, o apóstolo Paulo aconselha antes de tudo consagração a Deus, humildade e fidelidade no uso dos dons ao escrever: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis o vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

Pr. Clari Mattos


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