ESTUDOS

VIVENDO EM TERRA ESTRANHA

Publicado: outubro, 2018

“Procurem a paz da cidade para onde eu os deportei e orem por ela ao Senhor; porque na sua paz vocês terão paz” (Jeremias 29.7).
“Orem em favor dos reis e de todos os que exercem autoridade, para que vivamos vida mansa e tranquila, com toda piedade e respeito” (1Tm 2.2).
Estas passagens têm sido usadas por muitos pastores e crentes em geral quando o assunto é a política partidária em que vivemos nesse tempo confuso e perigoso que tem incitado muito ódio e intriga, bem como até heresias entre os salvos. Em relação às heresias, já vi de tudo, da cabala numérica para provar que determinado candidato tem o número certo e que o mesmo é provado na bíblia! Outros forçando interpretações proféticas, para dizer que agora é a hora, quem vem aí um novo tempo, etc. Mas, no outro polo também tem crentes sinceros, defendendo sua posição e achando que o seu candidato é que vai resolver as questões sociais mais sérias.
O foco, me parece está, nos últimos dias, voltado somente ao que é material, social e temporário.
Útil lembrar que vivemos no país, um sistema democrático, no qual a vontade do povo é soberana, pois a democracia se define por ser “governo do povo pelo povo e para o povo”. Então precisamos que o povo brasileiro seja transformado em sua estrutura cultural, emocional e acima de tudo espiritual, mas atenção! A transformação proposta pelo evangelho é individual e não nacional, corporativa ou partidária!
Todas as citações bíblicas, utilizadas pelos políticos, especialmente no antigo testamento, se referem a um sistema de governo em que Deus era a autoridade maior. E como sabemos, nenhum sistema atual de governo propõe isso, mesmo porque o Senhor Jesus separou mui claramente as coisas: “[…] deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Lucas 20.25), e “Jesus respondeu: — O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas agora o meu Reino não é daqui” (João 18.36).
Porém, somos cidadãos da terra e precisamos nos submeter às leis daqui (Rm 13.1), uma dessas obrigações é votar! Então que o façamos com inteligência, procurando o que venha a ser útil à nação e não somente a alguns grupos também! Questões de moralidade e formação familiar é coisa para se aprender em casa, não na escola ou no congresso.
Somos uma nação santa e salva vivendo entre um povo de corações corrompidos pelo pecado e de impuros lábios (Jo 17.15; Is 6.5).
Como nosso povo é muito heterogêneo em pensamentos, crenças, sentimentos e realidades muitos diversificados é de se esperar que haja mesmo muita confusão quando se consulta o povo sobre assuntos políticos. Desde há muito que o Senhor entregou o governo da terra ao homem, como seu preposto legal na administração do planeta, e que consta não mudou nem mesmo com advento da Graça (Gn 1.28; Sl 115.16; 8.6). Isto não quer dizer que o Criador não intervenha aqui e ali, quando se fizer necessário ou então mediante súplicas de povos ou pessoas oprimidas que sofrem e não têm condições de sozinhas resolverem suas questões. Isto pode ser visto em relação à nação de Israel no antigo testamento.
Cremos na liberdade de tomadas de decisões individuais, chamado de livre arbítrio, resultando na realidade de que o ser humano é plenamente responsável por suas escolhas, das quais colherá os respectivos frutos, certamente (Gl 6.7).
A grande questão esquecida por alguns de propósito, creio, e por outros por pura ignorância ou mesmo comodismo, é esta: Se nosso regime de governo é democrático o qual propõem que a vontade do POVO é soberana e não a de Deus, como inserir ou encaixar a vontade de divina para a nação, se há uma miscelânea de visões religiosas?
O que significa o propalado voto consciente?
Consciente do quê?
Uma conceituação secular e profissional das ciências humanas propõe o seguinte enunciado sobre estar consciente:
“Consciência é o estado mental de estar plenamente ciente dos acontecimentos ou fatos, tal como esses definem o mundo lógico, ser consciente ou ter consciência é estar no mundo, e participar de sua construção histórica. Consciência é definida em oposição à inconsciência. A consciência contém aquilo que pode ser objeto do pensamento lógico-matemático”.
Será que nosso povo de mentalidade tão culturalmente misturada, de crenças e valores tão diversos e de desigualdades sociais tão gritantes, poderia votar conscientes das mesmas necessidades e desejos do todo continental do país com 214 milhões de habitante, distribuídos em 5570 municípios?, e ainda harmonizar isso tudo com a vontade de Deus para o destino da nação?
Ajuda em alguma coisa exortar o povo a votar conforme a “sua consciência”, se esta é tão relativa, ou até mesmo corrompida também?
Presumo que essa famosa e repetida frase é tão inócua e ineficaz, como mandar um gato agir com seu instinto, pensando em proteger o rato de ser devorado!
Para reflexão, lembramos que a tal da consciência é perigosamente relativa mesmo, pois todos os que já tomaram uma decisão na vida ou a farão, em geral dizem que o fizeram conscientemente! Assim como ouvimos que há muitas cosmovisões, há também muitas formas de se estar conscientes, ou adquirir um estado de consciência como dizem seitas místicas e a parapsicologia. Cada grupo ou indivíduo pode ter as suas próprias convicções providas pela respectiva consciência, que em última análise foi contaminada pelo pecado (Rm 3.23).
Alguns exemplos do que o novo testamento fala sobre a consciência podem ajudar a entender a função ou ação da consciência no ser humano.
As expressões de gente com consciências inadequadas ou falhas:
– Paulo fala um tipo de “consciência corrompida” (Tt 1.15);
– O apóstolo das gentes também se refere a “consciência cauterizada” (1Tm 4.2);
– O autor da carta aos hebreus, menciona uma “consciência má” (Hb 10.22);
– Pode haver também alguém até mesmo nos arraiais dos santos com “uma consciência fraca” (1Co 8.7,10,12).
Graças a Deus, há também muitos com consciências positivamente analisadas e aprovadas:
– Menciona-se pessoas cujas “consciências estão limpas” (1Tm 3.9; 2 Tm 1.3; Hb 13.18);
– Outros podem demonstrar “boa consciência” (1Tm 1.19,5);
– Existe também alguém com “consciência pura”, tanto diante dos homens como diante de Deus (At 24.16);
A consciência humana é entendida como sendo a luz interior de cada individuo sadio que funciona como fórum para juízo íntimo, acusando ou aprovando as ações próprias de cada um (Rm 2.15; 13.5; Jó 27.6).
Que fazer, então?
Orar, sempre ajuda!
Mas, todos vão dizer o mesmo e parece que se tornou mais um chavão isso.
O tipo de oração que realmente vai fazer diferença é aquele no qual pedimos a direção divina no que individualmente devemos fazer.
Pesquisar a vida e o posicionamento do candidato e seu partido ou coligação partidária também é necessário.
As diretrizes do novo testamento sobre o tema da política são apenas subjetivas, não diretivas nem normativas e muito poucas, na verdade, se resumindo em poucos itens como:
O conselho de Paulo para que o salvo ORE pelos que estão em eminência, ou seja, no poder (1 Tm 2.1,2): “Orem em favor dos reis e de todos os que exercem autoridade, para que vivamos vida mansa e tranquila, com toda piedade e respeito”.
Também exige que o crente em Cristo seja SUBMISSO às autoridades legalmente constituídas (Tt 3.1; Rm 13.1-7; 1 Pe 2.12-17).
Somente se permite a desobediência civil, nos casos em que decretos ou leis humanas sejam claramente contrários à Palavra de Deus (At 4.19, 20; 5.29).
“Desobediência civil, em poucas linhas, é não respeitar uma lei por achar que ela não faz o menor sentido”.
Na nossa atual realidade, quando muitas leis já confrontaram os ensinos bíblicos e algumas garantias do cidadão cristão foram retiradas ou em vias de acontecer, podemos conforme as diretrizes da ética Cristã, eleger candidatos crentes, devidamente vocacionados e preparados para a vida pública. Tendo consciência de que estes enfrentarão muitas e ferrenhas lutas.
Não creio na função corporativa da igreja, como se fosse um partido político exigindo ser ouvida, mas sim em cidadãos transformados que viverão na sociedade como sal e luz (Mt 5.13-16), votando e sendo votado.
A missão da igreja é espiritual, primordialmente, a do estado é civil e secular.
Obs. Assim como não acreditamos que a ocasião faz o ladrão, mas apenas o revela, também entendemos que a política não corrompe o político, apenas revela o corrupto que está dentro dele.
O Mestre revela que: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito” (Lucas 16.10 NAA).
Amém!
Pr. Clari Mattos.


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